"Falar sem aspas, amar sem interrogações, sonhar com reticências, viver e ponto final."

sábado, 9 de junho de 2012








Há uma linha que liga o passado com o presente, e esses com o futuro.
Há uma linha que tem os seus altos e baixos, uma linha que não é certa, onde as curvas se salientam pela sua grande abundância e as retas se apresentam mais dispersas.
É uma linha que distingue o mal do bem mas, quem nela anda, pouco ou nada saberá sobre isso acabando numa generalidade por se enfiarem de imediato no que lhes parece melhor e saírem de lá sempre pior ou então nem saírem, também é uma ‘opção’.
Não se trata de pessimismo, como sabem a realidade é muitas vezes ou sempre, a situação mais difícil de se enfrentar, é como se estivéssemos num quarto todo escuro e de repente o flash de uma máquina disparasse fortemente contra os nossos olhos.
A realidade também é assim, é fechar os olhos porque ninguém a quer ver, ninguém a quer sentir, ninguém quer levar com ela porque é difícil enfrentá-la. É como uma fotografia, quando não a queremos tirar ou não temos vontade para tal tapamos os olhos e/ou viramos a cara mas quando estamos dispostos a tira-la sorrimos e nem o flash nos afeta.
A realidade também é assim, depende da vontade que cada um tem para a viver, para a enfrentar, para a mudar consoante os seus gostos e apetites. É tudo uma questão de coragem e força de vontade, nunca ninguém disse que era ou seria fácil, aliás nada o é mas, o que é que fazemos quando queremos mesmo uma coisa? Lutamos não é? Então se queremos que a realidade seja algo com mais sentido, mais motivos para sorrir, que seja melhor, que nos agrade mais trabalhamos para isso, lutamos, conquistamos é assim que a vida foi feita então é assim que a temos de viver. Superar ou tentar superar todos os obstáculos, atravessar todas as vírgulas que nos são colocadas e continuar, simplesmente continuar, se o nosso objetivo é chegar a algum lado, só temos que nos concentrar em dar continuidade a isso, ao caminho para depois se poder dizer: “consegui” e passar para o próximo.
Tudo depende do nosso estado espírito, e como podem ver ser pessimista não complica as coisas, antes pelo contrário, ajuda porque é com este tipo de pensamentos que eu me concentro em conseguir melhor, sempre mais, é lá que eu vou buscar as minhas forças e doses de ignorância para que as coisas más ou de baixo nível não afetem em nada no meu caminho e para que a minha linha, depois de cada curva, tenha sempre uma reta.





Eu não sei se será um problema ou se não, eu só sei que a partir do momento em que os nosso corpos se sentam lado a lado naquele sofá já familiar, se calhar bastante familiar, eu perco-me de mim, eu mudo, eu não sou a mesma. Eu sou aquela pessoa que desconhecia ser, eu sou para mim a pessoa mais estranha do momento. Cada toque, cada gesto, cada palavra ou não palavra, em cada minuto de silêncio eu deixo de ser eu, e passo a ser alguém.
É uma queda que tens para me deixar assim, completamente fora de mim, fazeres com que eu seja aquela pessoa que nunca fui mas que me deixa com uma vontade enorme de me conhecer, de a ser de novo, de viver mais um bocado da minha vida sendo eu aquela personagem que fui naquela tarde, naquele sofá, durante aquelas três ou quatro horas.
Despertares em mim uma quantidade de sensações, das quais algumas impossíveis de controlar, ir ao mais profundo de nós, buscar sempre mais qualquer coisa, fazer sempre uma nova descoberta, ir até ao limite, pode-se dizer que é mesmo pisar o risco mas nunca passando para o outro lado, nunca mudando de margem.
Ouvir-te a respirar ao meu ouvido e ouvir cada batida do teu coração, enquanto a minha cabeça repousa sob o teu peito é uma dádiva. O desenvolver das coisas é qualquer coisa de extraordinário, a minha única preocupação são as horas, é mesmo o facto de ter de procurar o relógio constantemente porque quando chega a minha hora, embora estejamos perdidamente malucos, sou obrigada a abandonar o momento, despedir-me e ir-me embora, o problema está aí em ter de deixar mas não conseguir. Em todas as semanas ter de arranjar uma desculpa diferente para justificar o atraso. Todas as semanas se atira areia para os olhos de quem já foi jovem, de quem já sabe como as coisas funcionam e imaginam como será quando estamos os dois na mesma casa, durante quase toda a tarde.  
Isto é amor, é normal perdermo-nos no tempo, pensarmos que ainda podemos aproveitar mais um ou dois minutos em cima da nossa hora, saber que falta muito pouco mas tentar que esse pouco dê para muita coisa e é aí que as coisas se desenvolvem não de propósito mas desenvolvem-se. Podia dizer que é uma coisa parva porque durante toda a tarde eu olho para o relógio e ao ver que ainda falta uma hora as coisas vão mais devagar, são mais lentas e quando está na hora pensa-se que tudo tem que acontecer e, embora saibamos que não é naquele curtíssimo espaço de tempo que tudo vai acontecer, preferimos sempre arriscar ficando por lá mais uma hora até ao próximo autocarro.
Depois pousar o pé no chão é já uma melancolia, passar para o outro lado do portão, atravessar a rua é algo bastante nostálgico.
Não dá para acreditar, não dá, depois só nos resta ficar a desejar durante toda a semana para que chegue, de novo, o nosso dia, o nosso lindo dia.